quarta-feira, novembro 03, 2010

Transparências do passado

O dia estava frio, gélido. Pelo ar dançavam pequenos flocos de neve que teimavam em não cair.
Era a sua época do ano favorita… Era uma época pura e limpa. O frio fazia-a sentir-se bem e calma. Nas árvores já se via pequenos pingentes de gelo que se formavam como jóias e que brilhavam com a fraca luz do Sol.
Inspirou profundamente como que a saborear o cheiro dos pinheiros perto da sua casa. Aquela manhã estava perfeita. Quase sublime.
O pequeno lago que ficava junto a sua casa na montanha já tinha gelado, fazendo com que os pequenos juncos ficassem cravejados de diamantes de gelo.
Olhou em volta e voltou a aconchegar o seu casaco branco de lã grossa ao redor do seu pescoço. “Eu ADORO o Inverno” pensou para si.
De dentro da casa um novo cheiro chegava… um cheiro doce a especiarias e a gengibre. Um olhar doce, tão doce como as bolachas fumegantes que carregava, fitou-a. “As tuas preferidas. Canela e Gengibre.” disse suavemente, como se fosse uma melodia.
As mãos da sua avó, já envelhecidas pelo tempo, seguravam uma bandeja de vidro com 5 biscoitos redondos e uma chávena de chá de lúcia-lima.
Os cheiros do Inverno. Biscoitos e chá…
“Tinha saudades de si… dos seus biscoitos… deste lugar.” disse permitindo que uma lágrima corresse na sua cara.
“Minha filha… sabes que podes voltar sempre que quiseres. Esta é a tua casa. Sempre será” disse a avó enquanto lhe beijava a testa com carinho.
Acordou. De um sonho bom e doce. No pequeno despertador da sua mesa-de-cabeceira as horas estavam marcadas a azul profundo. 07 horas da manhã. Voltou a adormecer até que o telefone a despertou do seu sono.
“Filha… é a mãe. A avó morreu hoje. Eram cerca das 7 horas” disse a mãe com a voz entrecortada pelo pranto.
“Sim… Eu sei… Sonhei com ela hoje.”
E o sonho fora transparente… como fora a sua vida.
Tinha que voltar ao seu lugar, à sua casa. Voltar a sentir a transparência do Inverno doce do passado.


Sendo transparente em Fábrica de Letras

6 comentários:

* Finding_Neverland * disse...

oh! Que texto tão lindo... De uma transparência sublime. ;)

LuV u Bá * <3

@lexis disse...

Vim pela "Fábrica", dei com uma construção bem conseguida e vou voltar para ler mais. O texto fez-me voltar atrás e reviver algo tão parecido que é arrepiante.
Ainda assim, obrigado!

Sandra disse...

A transparência de nossos ideias é tudo de bom.
O amor a vida tem que ser vivida assim...Simplesmente com as transparências de nossas açoes.
Estamos aqui. http://sandrarandrade7.blogspot.com/2010/11/trnsparencia-dos-sentimentos.html
Carinhosamente,
Sandra

Lala disse...

Genial! Às vezes a ligação que temos com alguém é tão transparente que, mesmo que estejamos longe, sabemos sempre como se encontra. Muitos Parabéns por este teu pequeno, mas muito intenso conto!

cheguei aqui através da Fábrica... e vou voltar!
Bjs!

Tulipa Negra disse...

Gostei mesmo muito deste texto. A ligação com algumas pessoas consegue ser tão forte que conseguimos pressentir se estão bem ou mal, vivas ou mortas... E o melhor que guardamos das pessoas que amamos são as boas recordações.
Beijinhos, hei-de voltar aqui!

Miss Murder disse...

Olá namorado da Nélia! Não sabia que tinhas blog xD

Muito prazer!